quarta-feira, 8 de julho de 2009
EU SOUBE PELO KOTSCHO
Presidido por Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, o júri premiou Lula “por sua atuação na promoção da paz e da igualdade de direitos”.
Não é um premiozinho qualquer. Entre as 23 personalidades mundiais que receberam o prêmio até hoje _ anteriormente nenhum deles brasileiro _ , estão Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul, Yitzhak Rabin, ex-premiê israelense, Yasser Arafat, ex-presidente da Autoridade Nacional Palestina, e Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos.
Secretário-executivo do prêmio, Alioune Traoré lembrou durante a cerimonia na sede da Unesco que um terço dos vencedores anteriores ganhou depois o Prêmio Nobel da Paz.
Pode-se imaginar no Brasil o trauma que isto causaria a certos setores políticos e da mídia caso o mesmo aconteça com Lula.
Thaoré disse a Lula que, ao receber este prêmio, “o senhor assume novas responsabilidades na história”.
Mas nada disso foi capaz de comover os editores dos dois jornalões paulistas, Folha e Estadão, que simplesmente ignoraram o fato em suas primeiras páginas. Dos três grandes jornais nacionais, apenas O Globo destacou a entrega do prêmio no alto da capa.
Para o Estadão, mais importante do que o prêmio recebido por Lula foi a manifestão de dois ativistas do Greenpeace que exibiram faixas conclamando Lula a salvar a Amazônia e o clima. “Ambientalistas protestam durante premiação de Lula”, foi o título da página A7 do Estadão.
O protesto do Greenpeace foi também o tema das únicas fotografias publicadas pela Folha e pelo Estadão. No final do texto, o Estadão registrou que Lula pediu desculpas aos jovens ativistas, retirados com truculência pela segurança, e “reverteu o constragimento a seu favor, sendo ovacionado pelo público que lotava o auditório”.
“O alerta destes jovens vale para todos nós, porque a Amaz}ônia tem que ser realmente preservada”, afirmou Lula em seu discurso, ao longo do qual foi aplaudido três vezes quando pediu o fim do embargo a Cuba e a criação do Estado palestino, e condenou o golpe em Honduras.
“Sinto-me honrado de partilhar desta distinção. Recebo esse prêmio em nome das conquistas recentes do povo brasileiro”, afirmou Lula para os convidados das Nações Unidas.
A honraria inédita concedida a um presidente brasileiro, motivo de orgulho para o país, também não mereceu constar da escalada de manchetes do Jornal Nacional. A notícia da entrega do prêmio no principal telejornal noturno saiu ensanduichada entre declarações de Lula sobre a crise no Senado e o protesto do Greenpeace.
É verdade que ontem foi o dia do grande show promovido nos funerais de Michael Jackson, mas também ganhou destaque na escalada e no noticiário a comemoração pelos quinze anos do Plano Real (tema tratado neste Balaio na semana passada) promovida no plenário do Senado, em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aproveitou para atacar Lula.
Diante da manifesta má-vontade demonstrada pela imprensa neste episódio da cobertura da entrega do Prêmio da Unesco, dá para entender porque o governo Lula procura formas alternativas para se comunicar com a população fora da grande mídia.
Muitas vezes, quando trabalhava no governo, e mesmo depois que saí, discordei dele nas críticas que fazia à atuação da imprensa, a ponto de dizer recentemente que não lia mais jornais porque lhe davam azia.
Exageros à parte, mesmo que esta atitude beligerante lhe cause mais prejuízos do que dividendos, na minha modesta opinião, o fato é que Lula não deixa de ter razão quando se queixa de uma tendência da nossa mídia de inverter a máxima de Rubens Ricupero, aquele que deu uma banana para os escrúpulos.
“O que é bom a gente esconde, o que é ruim a gente divulga”, parece ser mesmo a postura de boa parte dos editores da nossa imprensa com um estranho gosto pelo noticiário negativo, priorizando as desgraças e minimizando as coisas boas que também acontecem no país.
Valeu, Lula. Parabéns!
sexta-feira, 3 de julho de 2009
MULHERES REAIS
Felipe Hellmeister, fotógrafo alemão, lançou recentemente fotos inusitadas de mulheres que aparecem (e parecem) sempre perfeitas. O resultado é muito interessante. No linque abaixo há outras fotos de jovens modelos famosíssimas pertencentes a uma geração diferente da de Brunet, que agora (na foto acima) está com 47 anos.Sociedade - NOTÍCIAS - Isabeli, Raquel, Raica e outras belas fotografam sem retoque
quinta-feira, 11 de junho de 2009
"Mãe, o Acre não existe!"
“Como assim, filho, o Acre não existe?”, retruquei.
“É que ninguém fala do Acre, não há notícias sobre ele, é como se ele não existisse.”
No exagero e ironia da afirmação percebi que havia uma oportunidade de pensar sobre o papel da linguagem e das mídias na percepção que temos da realidade, e do enorme poder da imprensa sobre o que pensamos e sabemos do mundo. A verdade é que sabemos pouco, muito pouco, sobre as coisas, e o pouco que sabemos é mediado não só por esse instrumento demasiadamente plástico e inconstante que é a língua, como também por aqueles que decidem o que, o quanto e como saberemos das coisas. É desnecessária a ressalva de que jornais não são a única fonte de informação disponível, não obstante a maioria das pessoas tenha nele sua principal ou única fonte de "saber". Antes que você pense que desprezo ou desconfio da imprensa – e desconfio mesmo, embora não a despreze, adianto-me a dizer que as decisões da imprensa sobre o que, como e quanto saberemos das coisas são fortemente influenciadas pelo comportamento dos que buscam suas informações, isto é, por nós mesmos: há coisas que nos apetecem, nos atraem, outras são indiferentes ou padecem de algo como uma invisibilidade imanente. É isso que me intriga e, por esses dias, alimentou meu pessimismo com relação aos valores compartilhados pelas pessoas, entre as quais me incluo. Digo-vos o porquê.
Na madrugada do primeiro dia deste mês, uma aeronave com 228 almas desapareceu nas águas do Atlântico, provocando espanto no mundo inteiro, desespero e tristeza a dezenas de famílias que sequer têm corpos a sepultar. O terrível fato ocupou uma parte significativa de tudo o que a imprensa, escrita e televisiva, ofereceu aos seus espectadores. O portal que hospeda meu endereço eletrônico construiu uma página só para as notícias do vôo 447, com um banner especial e uma longa lista com linques sobre todas as informações sobre o fato até agora obtidas. Naquela semana, minha revista semanal chegou mais cedo, sua capa foi dedicada à tragédia e parte de suas páginas traz fotos e informações das vidas que se perderam naquela madrugada. Quando ainda me refazia dos efeitos de tão tristes informações e imagens, eis que me chega aos ouvidos a notícia, igualmente trágica e espantosa, de que um incêndio matara vinte e poucas crianças numa creche. Esse número posteriormente chegou a quarenta e quatro. O fato inaceitável (segundo é dito, a creche não tinha saídas de emergência nem portas à prova de fogo, e sua estrutura estava tão deteriorada que uma parte do teto ruiu sobre o quarto onde estavam os berços e camas) ocorreu na cidade de Hermosillo, no estado mexicano de Sonora, que faz fronteira com os Estados Unidos. Pouco mais do que isso foi veiculado até agora.
Não é necessário dizer que as tragédias se equivalem, e que a diferença quantitativa é, para esse caso, um dado irrelevante. Mas há uma enorme desproporção em termos de volume de informação e interesse em torno dos fatos: nunca saberemos os nomes dessas crianças mortas, o perfil de suas famílias, o que disseram ou fizeram na última refeição com seus pais, em que nível do desenvolvimento motor e cognitivo estavam (elas tinham entre seis meses e cinco anos). Eram filhas de trabalhadores. Minha pergunta é: saber delas interessa a alguém? Tomara que eu esteja errada, e que domingo meu semanário me surpreenda.
sábado, 7 de março de 2009
NÃO HÁ O QUE COMEMORAR
(...) chegaram os seus discípulos e se admiraram de que estivesse falando com uma mulher; (...) Quanto à mulher, deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens: Vinde comigo e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Será este, porventura, o Cristo? João 4: 27-29.
Por causa de algumas campanhas publicitárias divulgadas logo depois do carnaval, estou com a impressão de que o 8 de março está quase um dia das mães: oportunidade de aquecer o varejo e glosa para homenagens piegas em louvor a uma certa feminilidade ideal, parte da atmosfera romântica que vicejou no século XIX.
Parece que ainda não conseguimos entender que mulheres, antes de qualquer coisa e simplesmente, são pessoas, e seguimos indefinidamente numa trilha hesitante e cheia de conflitos primários e anacrônicos.
Os mesmos media que divulgam, entre o carnaval e a páscoa, os assustadores números da violência contra meninas, moças, senhoras jovens ou idosas ou a persistente desigualdade dos salários e condições de trabalho, são veículo da perversa e lucrativa ideia de que mulheres têm obrigação de ser belas.
Abundam ainda humanos machos que se quedam em veneração diante da sublimidade e superioridade (dizem eles) das fêmeas humanas, mas não hesitam em coloca-las no “seu devido lugar” se porventura alguma aspirar a ocupar os lugares, simbólicos ou reais, que pensam ser sua propriedade. Não é delírio meu, caro leitor, conheço-os. E alguns são jovens.
O evangelho de Jesus, a mensagem da Graça, é portadora de justiça e retidão. A realidade a nossa volta, no entanto, é injusta e tortuosa. Nunca sei ao certo o quanto deveriam (embora saiba o quanto podem) as injustiças do mundo ser corrigidas e alinhadas pela obra da cruz, mas sei que os que foram alcançados por ela devem ser promotores dessa justiça e retidão, como Jesus o foi. Por essa razão, mantenho-me resistente à postura que ainda prevalece no meio cristão em relação às mulheres. Sei de uma igreja reformada em que uma mulher sequer pode fazer uma oração audível no culto público. Ao extremo dessa postura associo aquela que ignora ou nega a legitimidade do diaconato feminino. Se é verdade que a Graça nivela a todos, de modo que em Cristo já não importa a etnia, classe social ou o gênero, não devem ser igualmente verdadeiras as implicações dessa obra extraordinária? Ou a ação niveladora da Graça deve permanecer no “plano redentivo”, como me disse alhures certo interlocutor inflamado? Se já não há condenação para os que estão em Cristo, que nódoa é essa, geneticamente herdada de Eva, que nem o sangue de Jesus é capaz de apagar? Antes de o Evangelho alcançar o povo konkomba (em Gana, África), as mulheres que ficassem viúvas passavam a mendigar, mas a ordem social foi alterada por causa de Cristo.
Voltemos ao 8 de março. Não é um dia para comemorações, desde a gênese desta data. Assim como honestidade e diligência são menos virtudes que obrigações, educação, trabalho e justiça social para as mulheres são direitos inalienáveis, a despeito de serem conquistas recentes.
Não há o que comemorar, mas muito o que agradecer. Historiadores informam que rabinos judeus dos tempos bíblicos agradeciam a Deus não terem nascido escravos nem mulheres. Eu agradeço a Deus por ser mulher, e ter nascido num tempo e lugar em que estudar e trabalhar não só é possível, como desejável e bom. Se, no entanto, estivesse noutro tempo ou espaço, hostis ao meu sexo, talvez estivesse entristecida, mas ainda assim grata, eternamente grata, pela maravilhosa graça de Jesus, que é tudo o de que mulheres e homens precisam.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
A TROCA
Filme muito bom, por várias razões. Destaco apenas a convincente atuação de Angelina Jolie e a surpresa de encontrar John Malkovich (acima dele, na minha escala particular, apenas o Al Pacino da trilogia de Copolla e em Perfume de mulher) como um pastor presbiteriano militando contra um Estado corrupto (!). E a direção, de Clint Eastwood.
Como não sei fazer crítica de cinema, deixo duas sugestões: assista ao filme. Quando chegar do cinema, leia esta resenha, à altura da película.
domingo, 11 de janeiro de 2009
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
http://neryraquel.blogspot.com
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
HORA DO BALANÇO
Creio que os ciclos da vida fazem-nos bem. Ajudam-nos a manter uma postura reflexiva, a conservar o olhar atento. Isso é necessário e bom.
Tolice esperar que um novo ano traga renovação. Quero encontrar a capacidade e a motivação para fazer coisas novas, bem como abandonar as ruins e conservar as boas, dentro de mim, todos os dias.
2008 não foi um ano fácil. Bem, de modo geral minha vida não tem sido feita de anos fáceis. Mas este texto não será uma lamentação, pois o saldo de quem anda com Deus é sempre positivo: a Graça é suficiente, e tudo de que precisamos. Há, portanto, muito a agradecer, e um tanto a chorar.
ENCANTAMENTO
A adolescência de meus filhos. É gratificante e doce vê-los crescer, superar desafios, saber muuuuuuuuuito mais do que eu e Itamar, conversar com eles e percebê-los cada dia mais inteligentes e independentes. São fortes, ativos, belos e receptivos. São jovens.
TRABALHO
Só uma coisa a dizer: "Quem sai andando e chorando enquanto semeia, voltará com alegria colhendo seus feixes".
MINISTÉRIO
Da honrosa e delicada tarefa de ser "mulher de pastor", continua atualíssimo o conselho do Rev. Franklin (sim, continuo sendo sua ovelha...) dado a mim há quase vinte e dois anos: "seu trabalho mais importante é cuidar de seu marido".
CARREIRA
2009 chega com uma etapa longa e pesada: o doutorado em Linguística. Não havia mais como adiá-lo. O processo seletivo foi cheio de surpresas, e a única euforia é o resultado positivo. No mais, é trabalho, trabalho e mais trabalho.
LUTO
No último 26 de outubro, quando o primeiro aniversário da morte de minha sogra nos compungia o espírito, Deus também tomou Thaís para Si. Era a filha mais velha do irmão de meu marido, casado com minha prima. Thaís tinha apenas dezesseis anos, morreu por complicações de uma crise cuja causa era uma anemia falciforme. Ela era linda, forte (sua mãe era especialmente zelosa com ela, por causa de sua doença) estudiosa e sonhadora. Acreditávamos que ela chegasse à idade adulta, como muitos falcêmicos chegam. Não foi o que Deus planejou. Cientes da fragilidade de nossa condição humana, seus pais e toda a nossa família têm sido assistidos e consolados pelo Espírito, conforme Jesus prometeu.
NINHO VAZIO
Foi um "ritual de passagem" ver meu filho mais velho, juntamente com seu pai, seu avô e seus tios, segurar uma das alças da urna funerária com o corpo de sua prima, ao fim do culto fúnebre, cheio de belos hinos de esperança e consolação. André é apenas um ano mais velho que Thaís, que tinha um ano quando meu filho mais velho, Itamarzinho, morreu, em 1994, com quase cinco anos de idade. Em 2009, André passará a estudar em São Paulo, razão por que muitos me dizem: "ele não voltará".
UMA COISA BOA
Este ano passei a cultivar plantas. Experiência surpreendente: plantas não são objetos, são seres vivos. Também têm seus ciclos, exigem cuidado, nutrição, poda, água, remédios e carinho. Retribuem com a beleza de suas formas e cores. Estou especialmente grata a Deus por essa atividade que foi acrescida ao meu cotidiano. Também agradeço a Itamar pelo incentivo e companhia: nossas manhãs de sábado em visita aos hortos de Salvador foram uma das melhores coisas de 2008.
Quanto a você, querido leitor, desejo um fim de ano e um ano novo cheios da Graça de Deus, que é tudo de que precisamos, conquanto Ele sempre nos dê mais, muito mais.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
ENTRE ASPAS
VIVER OU MORRER
A vida é um precioso dom de Deus e não pode ser desperdiçada em um só segundo. Cada novo dia que recebemos é um valioso presente que dura somente até à hora de dormir. Se bem usarmos esse talento, mui bem será; se o negligenciarmos, que desperdício tremendo. E o pacote desse dom vem completo e se apresenta rigorosamente igual para todos: O mesmo sol nasce e se põe sobre todos; as possibilidades se renovam a cada manhã para todos; a vida que pulsa exuberante é de todos. Da mesma forma, a maldade presente na terra, em forma de opressão, acorda ao lado de cada um de nós todos os dias, de modo que viver bem é uma escolha. Seguem aqui alguns conselhos básicos para a sua meditação: Decida sorrir mais, relaxar ante as muitas pressões que são impostas sobre você o dia todo. O bom humor é remédio certo para a sequidão da vida no planeta. Você não vai conseguir dar conta de tudo e agradar a todos ao mesmo tempo. Querer desempenhar um papel de salvador do mundo e manter uma performance impecável de quem não erra o tempo todo é comprar doença emocional, pois todos somos falhos e limitados; ninguém vai conseguir viver sem tropeçar. Observe mais os detalhes das coisas, perceba o que está em volta do que se encontra no centro, saia do lugar comum, mude de janela, desvie o foco, abstraia-se, arrisque-se de vez em quando, prove algo novo, converse com uma criança, ouça uma história de um velhinho, pare em um lugar belo e fique quieto ouvindo os sons, observe os passos das pessoas e medite, dê ordens à sua mente para que se aquiete, busque em sua memória lembranças boas, retenha só que for bom, jogue fora todo o que for estorvo e não lhe traga edificação, durma mais, ouça mais música, ponha o pé no chão, corte as unhas você mesmo, de vez em quando presenteie você mesmo, não tenha medo de ser ridículo aos olhos de alguém só porque você está feliz, relembre os seus sonhos ao amanhecer, coma bem, abrace mais, beije, converse com amigos sobre os seus medos e sonhos, colha uma fruta no pé, promova e cultive amizades, ore mais, seja mais crente, desenvolva a sua salvação, veja o sol se pôr mais vezes, curta uma lua cheia, faça elogios sinceros, leia mais a Bíblia, se possível, evite o centro da cidade, planeje melhor o seu dia, a fim de sobrar tempo para os seus cuidados pessoais, doe o que você não usa, compre somente o que você realmente precisa. Evite ficar ansioso, não sofra antecipadamente por nada, dê sentido às coisas, gerencie com zelo as suas emoções, alimente sua mente com boas leituras, aprenda algo novo, não deixe ninguém manipular seus pensamentos e vontades, não manipule, aprenda a dizer não com classe, mas não faça o que realmente não quer, desafie os seus medos, cresça, não estacione, mude seus itinerários, aprenda com os erros dos outros, seja elegante, admita que perdeu, construa em sua mente a vívida idéia de que cada segundo vivido contém um valor inestimável e não volta mais; valorize cada gesto, cada palavra, cada sentimento que perpassar sua existência. Para a sua saúde integral, faça essas coisas. Ou morra.
Pr Itamar
sábado, 11 de outubro de 2008
COME THOU FOUNT OF EVERY BLESSING
Aprecie a versão que mais te agradar.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
A COR DAS LENTES DE ENXERGAR A CRISE
A esquerda contabiliza seus ganhos: anuncia com mal disfarçado júbilo o "fim do neliberalismo", ou pelo menos a necessária intervenção estatal no mercado que parece não suportar sua própria liberdade; e desfruta a alegria ingênua e fugaz de poder dizer "eu não falei?". A direita se vira como pode, e administra a desvantagem apostando em que tudo vai se resolver, que os 700 bi do tesouro americano neutralizarão os danos do estouro da bolha, pois esta não é a primeira crise e a América é grandiosa o bastante para superá-la e ensinar ao mundo (e principalmente à torcida do contra) como age uma grande potência.
Não sou boba de torcer para que os States abaixem seu topete, pois certamente a coisa vai respingar por aqui, ou já não temos suficientes problemas com que lidar? Essa rede planetária de negócios e efeitos em cadeia parece-me assustadora demais para não desejar que tudo se resolva. Sou individualista e acomodada o sufuciente para desejá-lo.
Para quem tiver paciência e interesse, os dois posts abaixo são duas análises que considerei interessantes. Os analistas são marxistas, mas têm a prudente percepção de que essa crise não é só "deles". É sensato que, no par de óculos com os quais precisamos interpretar os fatos (tomo emprestado a metáfora com que Zizek abre seu texto), consideremos mais de uma coloração ideológica. É a amigos de direita que devo a observação de que não é confiável olhar o mundo com um tom só. Tenho, entretanto, a liberdade de escolher as lentes.
Antes que você se pergunte por que uma professora de português sai dando pitacos no que "não entende" - um argumento pejado de violência simbólica e capaz de silenciar o pensamento cristão nas esferas laicas da sociedade-, afora a necessidade de definir os limites do que "se entende", digo que me pronuncio sobre tudo o que é da minha conta. Para isso servem os blogues; para isso não me falta informação, sempre parcial, sempre incompleta, nem sempre confiável, mas fartamente disponível a quem busca conhecimento.
Dinheiro Queimado
Folha de São Paulo, Mais!, 28/09/2008
Crise - qual crise? Eis o que tonitruavam até pouco tempo atrás ideólogos liberais, de direita e também de esquerda, que acreditam na vida eterna do capitalismo. Saiu cada vez mais do foco da atenção o fato de essa espécie de sociedade não apenas ter uma história, mas ser mesmo a história de uma dinâmica cega. Justamente nas duas últimas décadas, as pessoas queriam perceber apenas os "eventos" transitórios nas formas sociais a-históricas de uma ontologia capitalista. Isso vale para indivíduos comuns e para os pobres, assim como para as elites. À semelhança do personagem Dorian Gray no romance homônimo do irlandês Oscar Wilde, parecia que no lugar do capitalismo só envelhecia a imagem do mundo social por ele criado, assumindo os traços da miséria, enquanto a lógica do dinheiro brilhava em falso frescor juvenil. Agora, a "Segunda-Feira Negra" da maior quebra financeira da história [a do Lehman Brothers, 15/9] desvela num único golpe o verdadeiro rosto do Dorian Gray capitalista. Ocorre que ninguém quer reconhecer essa natureza do novo surto de crise. A confiança atávica no capitalismo conduz apenas à busca de culpados."Práticas nada sérias" de especuladores e uma "política econômica anglo-saxã" são responsabilizadas pelo desastre. Tal explicação míope com ecos anti-semitas já foi mobilizada recorrentemente no passado.Há mais de 20 anos uma onda de crises financeiras acompanha a globalização. Todas as medidas aparentemente bem-sucedidas para evitar uma "fusão nuclear" do sistema financeiro internacional só lograram reformular o problema, em vez de solucioná-lo.
Humanos obsoletos
Sua evolução atual implode todas as concepções até agora propostas. Não afetou apenas o setor dos créditos hipotecários nos EUA, mas provocou também uma reação em cadeia, cujo fim ainda é distante. É impossível que as causas sejam a falha individual e as deficiências morais dos atores. Elas só podem residir no núcleo do sistema, referido à economia real.O capitalismo é apenas a acumulação autotélica de dinheiro, cuja "substância" consiste no uso crescentemente ampliado da mão-de-obra humana. Ao mesmo tempo, porém, a concorrência conduz a um aumento da produtividade, que torna a mão-de-obra obsoleta, em escala também crescente. Apesar de todas as crises, tal autocontradição parecia dissolver-se sempre em uma regeneração da absorção maciça da mão-de-obra por novas indústrias. O "milagre econômico" depois de 1945 transformou em credo essa capacidade do capitalismo, mas, desde os anos 1980, a "Terceira Revolução Industrial", microeletrônica, ensejou uma nova qualidade da racionalização, que desvaloriza a mão-de-obra humana em medida antes desconhecida. Sem o surgimento de novas indústrias dotadas da potência de crescimento auto-sustentado, a "substância" real da valorização do capital se derrete.O neoliberalismo foi tão-somente a tentativa de gerir com meios repressivos a crise social daí decorrente, por um lado, e de produzir um crescimento "sem substância" do "capital fictício" mediante o inchaço irrefreado do crédito, do endividamento e das bolhas financeiras nos mercados de ações e de imóveis, por outro lado. Mas essa abertura mundial das comportas monetárias e, sobretudo, a avalanche de dólares produzida pelo Banco Central dos EUA já foram o pecado original do assim chamado monetarismo, que postulara como cerne da doutrina neoliberal a redução forçada da quantidade de dinheiro. Na verdade, o jorro de dinheiro, criado pelo Estado a partir do nada, subsidiou uma inflação de ativos patrimoniais fictícios. O paradoxal "socialismo do dinheiro sem substância" experimenta agora seu "Waterloo", como antes já ocorreu com o capitalismo de Estado do Leste Europeu e a versão keynesiana do crescimento fomentado pelo Estado no Ocidente. A estatização de fato do sistema bancário dos EUA e o plano do secretário do Tesouro dos EUA para conter a crise com recursos estatais só podem ser avaliados como atos de desespero. Da noite para o dia revelou-se o caráter de capitalismo estatal da suposta liberdade dos mercados.
Estágio final
Comentaristas irônicos já falam em "República Popular de Wall Street". Mas isso não resolve nada. De certa forma, estamos diante do último estágio do capitalismo de Estado, que na melhor das hipóteses pode postergar o colapso dos balanços com mais emissões inflacionárias de moeda. À diferença de épocas anteriores, inexiste espaço para novos programas conjunturais, que precisariam alimentar-se na mesma fonte. Com isso também chegou o fim dos EUA enquanto potência mundial. Não é mais possível financiar guerras intervencionistas com recursos próprios. O dólar se torna obsoleto enquanto moeda mundial. Ocorre que não podemos vislumbrar no horizonte nenhum substituto para os papéis da última potência mundial e do dólar. O ressentimento contra a "dominação anglo-saxã" não é uma crítica do capitalismo e não tem credibilidade, pois os fluxos unilaterais de exportações aos EUA sustentaram a conjuntura do déficit global. Na Ásia, na Europa e alhures, as capacidades industriais não viveram de ganhos e salários reais, mas, direta ou indiretamente, do endividamento externo dos EUA.Déficit globalNo fundo, a economia neoliberal das bolhas financeiras foi uma espécie de "keynesianismo mundial", que agora se extingue como a anterior variante nacional do keynesianismo. Todas as "novas potências" supostamente emergentes estão inseridas de modo economicamente dependente na circulação global do déficit. Sua dinâmica muito admirada foi uma mera aparência, sem desenvolvimento interno próprio. Por isso não haverá em nenhum lugar o retorno a um capitalismo "sério" com empregos "reais". Em vez disso, devemos esperar o efeito dominó de uma repercussão da crise financeira na conjuntura mundial, ao qual nenhuma região poderá subtrair-se. O capitalismo de Estado e o capitalismo concorrencial "livre" evidenciam ser dois lados da mesma moeda. Abala-se não um "modelo" passível de ser substituído por outro, mas o modo vigente da produção e da vida enquanto fundamento comum do mercado mundial.
ROBERT KURZ é sociólogo alemão, autor de "O Colapso da Modernização" (Paz e Terra). Tradução de Peter Naumann.
Crise: modos de usar
Folha de São Paulo, Mais!, 28/09/2008
Quando o herói de "Eles Vivem", de John Carpenter, uma das obras-primas esquecidas da esquerda de Hollywood, colocou um par de óculos de sol estranho que encontrou numa igreja abandonada, descobriu que um outdoor colorido que convidava as pessoas a passar férias numa praia do Havaí passava a ostentar apenas palavras cinzentas sobre um pano de fundo branco -"casem e se reproduzam"-, enquanto um anúncio de uma nova TV em cores passava a dizer simplesmente "não pense, consuma!". Em outras palavras, os óculos funcionavam como aparelho de crítica da ideologia, possibilitando ao protagonista enxergar a mensagem real oculta sob a superfície colorida. O que veríamos, então, se observássemos a campanha presidencial republicana com a ajuda de óculos como esses? A primeira coisa que chamaria nossa atenção seria uma longa série de contradições e incoerências já observadas por muitos comentaristas. O chamado para passar por cima das divisões partidárias -acompanhado pela brutal guerra cultural de "nós" contra "eles". O aviso de que a imprensa deveria se abster de comentar a vida familiar dos candidatos -enquanto a família é exibida sobre o palco. A promessa de mudanças, acompanhada pelo mesmo velho programa de sempre (isto é, menos impostos e menos Estado, reforço das Forças Armadas, política externa mais intransigente). A promessa de reduzir os gastos do Estado, acompanhada de elogios ao governo Reagan. Acusar o partido adversário de privilegiar o estilo em detrimento da substância - em eventos de mídia perfeitamente encenados. O próximo passo é perceber que essas e outras incoerências não são um ponto fraco, mas uma arma-chave da força da mensagem republicana. A estratégia republicana explora com maestria as falhas da política liberal-democrata: sua preocupação paternalista com os pobres, associada a uma indiferença mal disfarçada pelos trabalhadores de colarinho azul; seu feminismo politicamente correto, que anda de mãos dadas com uma mal disfarçada desconfiança das mulheres no poder. Sarah Palin [candidata à Vice-Presidência na chapa republicana de John McCain] foi um sucesso nesses dois quesitos, desfilando sua feminilidade com seu marido de classe trabalhadora. As gerações anteriores de políticas (Golda Meir, Indira Gandhi, Margaret Thatcher - mesmo Hillary Clinton, até certo ponto) eram mulheres do tipo mais comumente descrito como "fálicas": elas agiam como "damas de ferro" que imitavam a autoridade masculina ou a exageravam, procurando ser "mais homens que os homens". Ao contrário, exibe sua condição feminina e materna com orgulho. Exerce um efeito "castrador" sobre seus adversários homens, não por ser mais viril que eles, mas por empregar a arma feminina máxima, ironizando sarcasticamente a autoridade masculina empolada. Ela sabe que a autoridade masculina "fálica" é uma pose, uma ilusão a ser explorada e ironizada.Vale recordar como ela zombou de Obama como "organizador comunitário", explorando o fato de que existe algo de estéril em sua aparência física, com sua pele negra diluída, seus traços magros e orelhas grandes...
Bênção eleitoral
Com Palin, vimos uma feminilidade "pós-feminista", sem complexos, unindo as características de mãe, professora correta e pudica (óculos, coque), pessoa pública e, implicitamente, objeto sexual. A mensagem é que não falta nada a Palin - e, para torná-la ainda mais irritante, foi uma mulher republicana quem realizou esse sonho da esquerda liberal. É como se Sarah Palin simplesmente fosse aquilo que as feministas liberais de esquerda querem ser. Não surpreende que o efeito Palin seja um efeito de falsa libertação: "Drill, baby, drill!" ("perfurar, baby, perfurar!" -alusão à perfuração de poços petrolíferos). Podemos reunir o impossível, feminismo e valores familiares, grandes empresas e trabalhadores braçais! Assim, retornando a "Eles Vivem", para captar a mensagem republicana verdadeira é preciso levar em conta aquilo que é dito e o que não é dito, mas que fica implícito. Onde a mensagem que vemos é a promessa de mudanças, os óculos revelariam algo como "não se preocupem, não haverá mudanças reais. Só queremos mudar algumas coisinhas para ter a certeza de que nada vai mudar de fato."O discurso da mudança, de mexer nas águas paradas de Washington, é uma constante republicana. Assim, aqui não há lugar para ingenuidade: os eleitores republicanos sabem muito bem que não haverá mudanças reais. Sabem que a substância será a mesma, com apenas algumas mudanças de estilo. Isso faz parte do acordo. Mas e se a mensagem republicana das entrelinhas ("não tenham medo, não haverá mudanças reais...") for a verdadeira ilusão, e não a verdade secreta? E se realmente houver uma mudança? Felizmente, aconteceu o fato necessário - uma verdadeira bênção eleitoral disfarçada - para nos fazer lembrar do mundo em que vivemos: a realidade do capitalismo global. O Estado adotou medidas emergenciais e prevê gastar US$ 700 bilhões com um plano de resgate financeiro, de modo a consertar as conseqüências da crise provocada pelas especulações do livre mercado. A mensagem é inequívoca: mercado e Estado não se opõem; intervenções fortes do Estado são necessárias para manter a viabilidade do mercado. Diante da avassaladora crise financeira, a reação republicana predominante foi a de desesperadamente tentar reduzir a crise a um infortúnio de gravidade restrita, que poderia facilmente ser sanado com uma dose correta do velho remédio republicano (respeito aos mecanismos de mercado etc.). Mas toda a encenação política de gastos menores do Estado se tornou irrelevante após essa injeção de realidade repentina: mesmo os partidários mais ferrenhos da redução do papel excessivo de Washington agora reconhecem a necessidade de uma intervenção do Estado que, em seu valor quase inimaginável, chega a ser sublime. Diante dessa grandeza sublime, todas as bravatas foram reduzidas a um resmungar confuso. Onde foram parar a determinação de McCain e o sarcasmo de Palin?
Competição ideológica
Mas terá a crise financeira total sido um momento que realmente provocou reflexão sóbria, o despertar de um sonho? Tudo depende de como ela será simbolizada, de qual interpretação ideológica ou de qual versão irá se impor e ditar a percepção geral da crise. Quando o curso normal dos fatos é interrompido de maneira traumática, o campo fica aberto à competição ideológica "discursiva". Por exemplo, na Alemanha, no final dos anos 1920, Hitler ganhou a competição pelo discurso que iria explicar aos alemães as razões da crise da República de Weimar e a saída proposta para ela (a conspiração, para ele, era a conspiração judaica); na França, em 1940, foi a narrativa do marechal Pétain que venceu a disputa por explicar as razões da derrota francesa. Conseqüentemente, para formular a coisa em termos marxistas antiquados, a tarefa principal da ideologia dominante na crise atual é impor uma narrativa que não atribua a culpa pela crise atual ao sistema capitalista em si, mas a seus desvios secundários acidentais (regulamentação fiscal demasiado leniente, a corrupção de grandes instituições financeiras etc.). Contra essa tendência, devemos insistir na pergunta chave: qual "falha" do sistema enquanto tal abriu a possibilidade de tais crises e colapsos? A primeira coisa a ter em mente aqui é que a origem da crise é "benévola": depois da explosão da bolha digital, nos primeiros anos do novo milênio, a decisão feita por ambos os partidos foi facilitar os investimentos imobiliários, para manter a economia andando e impedir a repressão. Logo, a crise atual é o preço que está sendo pago pelo fato de os EUA terem evitado uma recessão cinco anos atrás. Assim, o perigo é que a narrativa predominante da atual crise seja aquela que, em lugar de nos fazer despertar de um sonho, nos possibilitará continuar a sonhar. É nesse ponto que devemos começar a nos preocupar: não apenas com as conseqüências econômicas da crise, mas com a tentação evidente de injetar ânimo novo na "guerra ao terror" e no intervencionismo dos EUA, para manter a economia funcionando a contento.
SLAVOJ ZIZEK é filósofo esloveno e autor de "Um Mapa da Ideologia" (ed. Contraponto). Ele escreve na seção "Autores", do Mais!. Tradução de Clara Allain.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
BANALIDADE
É inútil opor-me à evidência de que ele é, sempre, brilhante. O que me lembra Schopenhauer, segundo quem o extraordinário estilo de alguns minimiza o fato de escreverem conteúdos desimportantes.
Mas de vez em quando - surpresa! – um ser humano se insinua por trás da imprecativa máquina verbal. É quando fala do filho, que sofreu paralisia cerebral ao nascer. É a propósito dele que se posiciona em relação ao aborto, não porque seja contra (“o aborto é uma escolha puramente pessoal”, diz), mas porque critica os que, defendendo o assassinato pré-natal, usam o raciocínio eugênico de que, a alguns, ele é mais adequado. Argumento precioso, porque fundado no “princípio” da igualdade (que ironia...), tão caro à esquerda: não há melhores nem piores.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
PENSE BEM O QUE IRÁ ESCREVER
como vocês podem perceber nos meus arquivos, sou uma blogueira caloura. Também sou passional e impulsiva. Pra piorar, tenho queda para temas políticos (com tendências à esquerda...), o que, sendo eu uma mulher cristã e reformada, faz de mim uma quase anomalia.
Nas minhas andanças pela blogosfera, descobri um sítio que faz uma promessa interessante: "Sabe aquelas coisas que ninguém fala, mas precisam ser ditas? Aqui tem disso e mais um pouco de tudo." Achei a proposta do blogueiro generosa e humana. Quantas vezes desejei, numa determinada situação, que alguém me dissesse aquilo de que eu precisava ouvir, algo que não conseguia discernir sem a imagem do outro, com a empatia que só marido, pai ou mãe, irmão chegado ou amigo do coração têm pra dar?
Entretanto, os conselhos que o referido blogue oferecia estavam muito aquém do que eu realmente precisava nesses primeiros passos na blogosfera. Sim, eu precisava que alguém me dissesse sobre o "comportar-se", não em meu próprio blogue, mas nos blogues dos outros. Já disse, dois posts atrás, que vivo procurando contatos, não entrei neste universo paralelo pra ficar falando diante do espelho...
Bati em algumas portas. Não percebi que, no ambiente virtual, há restrições tácitas ao contraditório. Desejava possíveis diálogos na base da tese/antítese, como sói acontecer em ambientes acadêmicos. Mas a coisa tem seu próprio funcionamento. Precipitada, cometi gafes, declarando o que ninguém estava interessado em ouvir...
Só agora, lendo o novo blogue Teologia Livre (um "ambiente" cristão leve e arejado), no impulso de registrar mais um comentário, deparei com um conselho sensato, provido de surpreendente linque:
"Pense bem o que irá escrever! Em caso de dúvida leia as Pistas para sobreviver no mundo virtual. No mais, agradecemos sua participação."
É claro que fui ao linque, e eis o que encontro:
Pistas para sobreviver no mundo virtual
1. Nunca, jamais, responda quem lhe contradisser – você nunca sabe se a mensagem foi mais uma armadilha para colocar-lhe numa sinuca de bico.
2. Sempre, mas sempre mesmo, responda a um questionamento com mais perguntas.
3. Nunca, jamais, se encante com relacionamentos virtuais – amigos e inimigos da Internet não existem, eles devem ser considerados meras virtualidades.
4. Nunca, jamais, conteste as idéias alheias; se foram colocadas na Internet, elas são o resultado de uma vontade doida de provar algum ponto de vista, portanto, suas críticas não serão bem vindas.
5. Sempre, mas sempre mesmo, apague as mensagens rancorosas pelo título ou, no máximo, antes que você termine de ler a primeira linha. Essa será sua vingança, o cara escreve um quilo de argumentos, gasta três horas para redigir alguma coisa, e em menos de 5 segundos o esforço dele vira nada. A tecla “Delete” é a mais poderosa arma que você possui, use-a.
6. Nunca, jamais, imagine que seus e-mails serão mantidos no privado. Jamais confie na confidencialidade da troca de correspondência virtual. Suas mensagens correm todo o risco de serem publicadas, seus desabafos jogados na rede mundial. Os escrúpulos virtuais são quase nulos. Não confie na promessa de que, “o que conversarmos aqui ficará só entre nós”. Quando escrever, considere que do outro lado existe alguém doidinho para praticar alpinismo em cima do seu nome.
7. Sempre, mas sempre mesmo, verifique a autenticidade de um texto. Quando re-encaminhar alguma coisa que recebeu, tome o cuidado de averiguar quem foi o autor. Nunca envie nada que esteja assinado: Autor Desconhecido.
8. Nunca, jamais, responda a qualquer provocação de e-mails anônimos. Na rede é comum se criarem identidades postiças, os famosos “nicks”, que na verdade, não passam de pseudônimos. Uma pessoa que não teve sequer a imaginação de virar outra pessoa e assina “anônimo” não merece uma resposta.
9. Sempre, mas sempre mesmo, prefira o silêncio à cretinice. Existe um ditado popular que diz: “As perguntas imbecis merecem respostas cretinas”. Este provérbio não se aplica à Internet. Dê o seu desprezo aos que mais lhe provocarem.
10. Nunca, jamais, deixe o mundo virtual vazar para sua vida real. Não se abata por ataques, difamações ou pedradas que você receber na Internet e nem se encante com os elogios. Lembre-se, o mundo virtual dos blogs, sites e “power points” não existe. Só o mundo concreto tem calor, pele, cheiro, afetos. A vida acontece no encontro dos olhares, no apertar das mãos. Desligue o seu computador, dê as costas para essa pseudo realidade, e vá viver.
Soli Deo Gloria.
Lidas as pistas, respirei fundo, agradecida por encontrar sabedoria sem que a estivesse buscando.
Termino com três palavras, a três pessoas diretamente implicadas neste meu post:
Roger, obrigada pelo conselho: não o pedi, você o ofereceu, contradizendo a velha máxima: "se conselho fosse bom...".
Norma, obrigada pela paciência e nobreza ao caminhar comigo. Discordamos de tantas coisas, mas tenho "muitos" a aprender contigo.
Renato, com este post , e principalmente com as pistas 3 e 10, "respondo" ao seu último comentário no Index.
P.S.: Como poderia esquecer? Muito obrigada ao autor do texto, o Ricardo Gondim.
domingo, 7 de setembro de 2008
OUTRA VEZ A FOME
A fome é uma realidade séria demais para que lhe sejamos indiferentes. Se não fosse uma questão tão fundamental, Jesus não teria dito: "Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim, nunca mais terá fome". Para quem mesmo estas palavras produzem um sentido "forte", como diriam alguns semanticistas? Para aqueles que têm na busca do alimento (de um dia por vez) o esforço de praticamente todo seu tempo. Os números desses seres humanos estão sempre na casa dos milhões.
Deparei, hoje, com uma resenha de Moacyr Scliar sobre a vida e o trabalho de Josué de Castro, um médico e livre-docente em Fisiologia que conduziu boa parte de seu esforço intelectual à temática da fome e sua geografia, num tempo em que não se cogitava ser o petróleo substituível por cana-de-açúcar. A esta resenha dedico mais um Entre Aspas.
MOACYR SCLIAR
Colunista da Folha
Este 5 de setembro assinalou o centenário de nascimento de uma verdadeira figura emblemática na história e na cultura do Brasil: Josué de Castro. Estamos falando de um verdadeiro pioneiro nos estudos sobre a fome, tema que ele, de família modesta e nascido no Recife dos mangues e dos mocambos, conhecia bem.Foi o tema que o mobilizou e que balizou sua carreira como professor, pesquisador, administrador e político. Essa carreira teve início nos sombrios anos 1930, marcados pela crise econômica que se seguiu ao crack da Bolsa de Nova York, pela ascensão do nazifascismo e do stalinismo.O Brasil, antes essencialmente agrícola, urbanizava-se e industrializava-se; os trabalhadores associavam-se aos sindicatos controlados pelo governo de Getúlio Vargas.É a época do tenentismo, do comunismo, do integralismo; o sentimento nacionalista cresce e bem assim a reflexão intelectual sobre o país. É a época em que Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. publicam importantes obras. É a época da ficção engajada de Graciliano Ramos, José Américo de Almeida e Jorge Amado. Em 1935 Josué de Castro muda-se para o Rio de Janeiro, assumindo a cátedra de antropologia da antiga Universidade do Distrito Federal.O que não é de surpreender: durante muito tempo antropologia e medicina, no Brasil, estiveram intimamente ligadas, como o demonstram os "médicos-antropólogos" da Bahia. Em 1940 torna-se professor catedrático de geografia humana na Universidade do Brasil.
Causas da fome
O conceito geográfico formaria a base de suas obras básicas, "Geografia da Fome" (1946), traduzido para 27 idiomas, e "Geopolítica da Fome" (1951). Josué de Castro divide o Brasil em cinco grandes áreas, sendo três delas, a área amazônica, a área do Nordeste açucareiro e a área do sertão nordestino, áreas de fome, da qual escapam Centro-Oeste e Extremo Sul. Para Josué de Castro a humanidade sempre sofreu com o drama da fome, mas essa situação pode ser agravada por fatores como a exploração colonialista. Citava o caso do Senegal, onde os colonizadores haviam substituído a cultura do sorgo, alimento básico da população, pela do amendoim, produto de exportação, gerando deficiências no regime alimentar. No Nordeste, a monocultura da cana-de-açúcar, durante o período colonial, teve o mesmo efeito, assim como a extração do látex na Amazônia durante o ciclo da borracha. Em "O Livro Negro da Fome" (1957), associa desnutrição a subdesenvolvimento, recusando outras explicações para a carência alimentar, sobretudo o argumento malthusiano da superpopulação. O alto índice de mortalidade infantil e a necessidade de braços para trabalhar para a lavoura explicariam o elevado número de filhos. Josué de Castro defendia uma reforma agrária que não apenas distribuísse terras, mas que proporcionasse à agricultura familiar assistência técnica, créditos e facilidade de comercialização dos produtos. Mas não se limitava a teorizar sobre o tema. Exerceu cargos executivos em serviços federais de alimentação e trabalhou na FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação). Exerceu por duas vezes o mandato de deputado federal por Pernambuco. Com o golpe de 1964 teve seus direitos políticos cassados e foi destituído do cargo de representante do Brasil em organismos internacionais ligados à ONU. Passou a morar em Paris, foi convidado para trabalhar em várias organizações, mas isso não atenuou o abalo emocional representado pelo exílio, que pode ter contribuído para sua morte em 1973.
Nova geografia
Aparentemente, as idéias de Josué de Castro foram ultrapassadas pelo tempo. A geografia já não condiciona de forma tão estrita o consumo alimentar, dado o crescente comércio de produtos alimentícios e a homogeneização de hábitos alimentares em decorrência da publicidade e dos meios de comunicação: há McDonald's e Coca-Cola em todos os lugares. Por outro lado, embora persistam as desigualdades entre diferentes camadas sociais, a prevalência da desnutrição no Brasil diminuiu, como o mostrou o recente relatório da Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde, que, constituída por decreto presidencial, teve o apoio logístico da Fundação Oswaldo Cruz (Ministério da Saúde). Seria o fim da fome no Brasil, e, quem sabe, no mundo? O dramático aumento do preço dos alimentos e o fracasso da rodada Doha mostram que não é bem assim. O colonialismo não existe mais, mas foi substituído pelo protecionismo agrícola dos países ricos, que em 2007 deram US$ 320 bilhões a seus agricultores para evitar que bloqueassem as cidade com tratores. No ano passado os preços dos alimentos básicos subiram até 70%. A ajuda aos países mais pobres, meros 0,7% do PNB dos ricos, só tem diminuído. Ou seja, há uma nova geografia da fome, e ela espera por seu Josué de Castro.
LEIA MAIS - Entre as obras de Josué de Castro, podem ser encontradas "Fome - Um Tema Proibido", "Geografia da Fome" e "Homens e Caranguejos" (todas pela Civilização Brasileira), além de "A Festa das Letras" (infantil, em parceria com Cecília Meireles, ed. Nova Fronteira).
sábado, 6 de setembro de 2008
ENTRE ASPAS
André Tavares, um jovem estudante de Ciências Sociais, envolvido nas atividades do L'Abri Brasil, tem informações sólidas e opiniões bem articuladas sobre temas como judaísmo e política internacional. Ele achou que dois comentários que lhe fiz mereciam atenção, e respondeu com o texto que segue. Já lhe agradeci a deferência e deixo seu artigo registrado aqui.
A era do dragão
As Olimpíadas de Beijing terminaram. O Partido Comunista Chinês mandou seu recado para o mundo todo, fez o dever de casa e a imensa vitrine mostrou a todos o tamanho do gigante. E ninguém se importou, ninguém viu. Ou fingiu não ver, para não ter que se importar. O protocolo dos jogos garantiu a tranqüilidade - o atleta que se manifestasse politicamente seria expulso dos jogos… tudo bem, é preciso manter a decência, ou a quantidade de insultos a Israel e aos EUA atrasaria os horários (ou alguém acha que as manifestações seriam contra os chineses, os nigerianos, iranianos, etc?).
Mas tudo o que estou dizendo aqui, já havia dito num outro post, que recebeu alguns comentários interessantes. Num deles, ou melhor, em dois, a Raquel Nery expôs algumas questões. Por serem de valor, entendi que seria melhor respondê-la num novo “artigo”, seria mais sério e adequado. Então, vamos lá.
O capitalismo ocidental é parte de um sistema que emergiu num processo multi-determinado que se intensifica na Europa depois do colapso do escolasticismo, com o Renascimento, Grandes Navegações e Reforma. Ao contrário do que dizem os marxistas, o Capital não é um agente impessoal que move as cordas da história e determina os desenvolvimentos - mas foi moldado por mudanças no esquema cultural ocidental que passou por profundas metamorfoses naquele período.
O sistema econômico a que chamamos “capitalismo” se desenvolve juntamente com outros aspectos que compuseram o cenário moderno, como reforma religiosa, reforma política, reforma científica, reforma estética, reforma antropológica… enfim. O sistema econômico e de produção foi equilibrado com o avanço de transformações sociais e políticas que garantiram alguma justiça: quando a exploração nas fábricas estavam em níveis insuportáveis, aparecem formas de organização e movimentos sociais apoiados em formas legais que garantiram instrumentos e vias de reivindicação para os trabalhadores. O processo é cheio de atrito e desgaste, não sou ingênuo, mas era possível e aconteceu.
O valor do lucro, da mais valia, está compensado pelo valor do trabalho, da dignidade, da justiça, da equidade… não estou a falar do melhor dos mundos, mas de um ajuste viável e salutar. O país a sofrer mais radicalmente o impacto da modernidade em termos sociais, a Inglaterra, tem uma terrível história para contar no chão de suas fábricas, mas também tem uma galeria de heróis que vão de Knox, passando por Wesley, Wilberforce, Ashley-Cooper, Thomas Chalmers…
Quando as amarras do capital estão apertadas demais, ou mesmo antes disso, há instrumentos de policiamento ou de regulação, estatais e da sociedade civil: sindicatos, associações, partidos, voto. Há liberdade de consciência assegurada, liberdade de imprensa, tribunais de justiça, divisão de poderes, arte livre e contestatora… há voz, voto, veto; em alguma instância há.
O problema do sistema produtivo capitalista não é sua existência, mas sua indisciplina, a imposição de suas regras em outras esferas da vida, como diria Goudzwaard, “achatando” e desregulando as outras atividades. O mesmo pode acontecer com outras esferas, dominando as demais, e produzindo anomia e opressão. E vemos isso hoje, o capitalismo e o mercado vão “achatando” as diversas áreas da vida e impõem suas regras (adequadas a si) às outras, provocando injustiça e distorções, por exemplo: aplicar as regras de mercado à educação, à politica, à arte, desregula e perturba essas dimensões da vida, empobrecendo a realidade.
Um sistema econômico ou de produção não pode levar a culpa pelas mazelas de um povo ou civilização; não sozinho. Pode ser culpado na medida em que não encontra mecanismos “disciplinantes” que o coloquem no devido lugar… e isso vale para outros agentes e agências, para todo um projeto de civilização.
Um outro ídolo moderno e contemporâneo que escraviza a vida é o Estado. Enquanto os neo-liberais crêm que o Mercado é a entidade reguladora ideal para as atividades humanas, os esquerdistas confiam suas vidas ao Estado como divindade dispensadora de justiça e equidade - aí o Estado passa por cima da família, da igreja, do mercado, do indivíduo, da academia, do artista, etc.
Toda forma de idolatria ideológica produz mazelas, injustiça, não tenho dúvidas.
O que torna o caso chinês particularmente perverso é justamente a junção de um Estado-Leviatã com um sistema de produção capitalista sem freios ou sistemas de equilíbrio: não há democracia, não há liberdade de imprensa, não há liberdade de consciência, não há liberdades individuais mínimas asseguradas, não há direitos trabalhistas (que ironia!), não há liberdade religiosa, de associação ou acadêmica, não há liberdade de ir e vir sequer. Sem esses mecanismo, se essas garantias, não há como se opor ou regular nada que proponha o Estado; e aí, com a associação deste com o capital em sua forma mais desenfreada, temos uma situação sem igual na história: capitalismo-estatal. O Estado regula e cerceia, abrindo um espaço inédito para o capital.
O capitalismo ocidental não é uma fonte de justiça - nem é sua responsabilidade ser provedor de tal coisa. Justiça é uma questão de espaço: coisas no seu devido lugar. É sistêmico: uma peça fora do lugar expõe as outras à incorretude. O que temos aqui no oeste é algum mecanismo de ajuste, não muito fino, mas o melhor já produzido.
Nessa comparação, o sistema chinês é tem uma malignidade intrínseca: cerceia, debita, explora e doutrina para liberar um agente virulento. O inimigo do modelo chinês, do comunismo chinês, não é o capitalismo, é a estrutura civilizacional ocidental. Pura e simplesmente, nossos valores são invertidos. Realmente Raquel está certa, os binômios não são suficientes para explicar a realidade. O problema é civilizacional - e quando a dourina coletivista chinesa encontrou o mecanismo comunista e conseguiu a simbiose com o sistema produtivo fabril-capitalista, temos um gigante faminto e destrutivo como nunca dantes.
Disso, com certeza, tenho medo: o leviatã já não habita os mares, mas é um dragão nos céus, cavalgando raios que fazem o Olimpo tremer.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
RESSACA DO POLITICAMENTE CORRETO
Arrisco uma resposta: uma tentativa legítima, bem intencionada até, de propor às pessoas que passem a dizer coisas novas no lugar de algumas das que sempre foram ditas. Com isso, crê-se que, FALANDO coisas novas, talvez ACONTEÇAM coisas novas.
Isso não é de todo falso ou ruim. Na verdade, é parte de um princípio para a vida. Palavras têm poder: animam, infundem graça, propagam bem-aventuranças. O que é uma bênção? Boas palavras ditas na intenção de alguém. O outro lado é igualmente verdadeiro: más palavras destroem, ferem, adoecem. O sábio disse: "A boca do justo é manancial de vida, mas na boca dos perversos mora a violência" (Pv. 10:11).
É intrigante como funcionam algumas palavras. Com "cego" refiro ao primo da minha vizinha que perdeu a visão na infância, também profiro um impropério no trânsito: "Ei, imbecil! É cego?". Se alguém diz: "sabe aquela do portador de necessidades especiais?", a piada vai pro beleléu. Perceba que não são muitas as palavras como cego e aleijado. E não falo de polissemia (qualquer palavra é potencialmente polissêmica) mas de certa ubiqüidade, porque tais palavras têm "duas faces": com elas pode-se fazer tanto uma referência comum, ordinária, como um xingamento.
Os críticos do politicamente correto são de opinião de que esses artifícios aumentam o preconceito, pois fazem com que o fato amenizado pela substituição lexical perca a transparência. São, no entanto, indiferentes ao fato de que, para os implicados na situação (como para qualquer pessoa), tudo o que se diz a seu próprio respeito é opaco.
Entretanto, do que adianta uma ferramenta boa e útil nas mãos de quem não tem habilidade? Pra fazer besteira, evidentemente, o que ilustro com o episódio que motivou esta reflexão. Estava ontem na UFBA. Era o Dominique Maingueneau, da Universidade Paris XII, notável da Análise do Discurso. Palestra por começar, o microfone não funciona direito. Ele espera, junto com o auditório, que se resolva o problema e diz:
"Vamos ver se há um jeitinho brasileiro."
Ao que uma assistente, na primeira fila do auditório, responde enfática e embaraçosamente desenvolta:
"Isso não existe, isso não existe! Jeitinho brasileiro, baiano preguiçoso, não existe!"
Será que aquela criatura pensa mesmo que Maingueneau não sabe disso? O bom foi que ele imediatamente atalhou:
"Você diz, então, que brasileiros são iguais a alemães!"
Ele tem razão.
Mas já não sei o que se pode dizer (ou fazer) quando um brasileiro, nascido mais pras bandas do sul, cioso de sua superioridade (transparente), olha pra alguém e exclama: "Baiano!", como quem diz... como quem diz... o que mesmo?
Deixa pra lá.
domingo, 17 de agosto de 2008
POLÍTICA E CIDADANIA CELESTIAL
Faço essa ponderação inicial em razão da minha tendência de usar meu blogue (apenas um iniciante...) para lincar textos que não são meus. Meu jornal predileto é a Folha de São Paulo, que me fidelizou há pelo menos dez anos talvez por causa de seu suplemento dominical Mais!. Sei, no entanto, que a Folha é apenas um jornal. Bom jornal, mas não mais que um jornal.
Isto posto, gostaria de comentar que, na edição de hoje, o Mais! dedicou-se a analisar o eleitorado americano a partir de uma perspectiva que me diz respeito: o seu perfil religioso (evangélico e, pelo menos em parte, conservador). Eis o lead do texto inicial da matéria (se você é assinante UOL terá acesso ao conteúdo integral aqui):
EM MEIO À GUERRA DO IRAQUE E O MEDO DA RECESSÃO, NOVAS GERAÇÕES DO PAÍS, QUE TEM 78,4% DE CRISTÃOS, SE DESILUDEM COM DISCURSO FUNDAMENTALISTA E ABREM ESPAÇO PARA TEMAS COMO ABORTO E CASAMENTO GAY
Pouco adiante, já no corpo desse texto inicial, é dito:
"Durante duas semanas de junho, num percurso que foi do Meio-Oeste ao Texas, a Folha visitou as maiores igrejas e personagens não muito católicos, procurando esboçar um recorte necessariamente incompleto do universo muito diversificado do cristianismo americano, cujo coro promete se fazer ouvir nas eleições presidenciais de 4 de novembro."
Não li tudo (domingo é dia de Escola Dominical pela manhã, soneca à tarde, se possível, e culto às 18h...), mas o farei logo. Mesmo assim, posso afirmar que a percepção que a imprensa "laica" (um mito de neutralidade) tem dos cristãos é sempre distorcida, pelo fato de que "coisas espirituais se discernem espiritualmente". É só observar o que André Petry andou falando dos crentes na Veja, a propósito da polêmica PL 122/2006. Os futuros habitantes do Reino dos Céus militam em instituições bem terrenas. Somos cidadãos - em exílio da Pátria eterna, mas completamente cidadãos. Política é incontornável. A imprensa sabe disso, e talvez melhor que muito crente que desistiu dessa cidadania, transitória e geralmente frustrante, que nos cabe exercer enquanto estivermos por aqui.
[O Mais! lincou uma entrevista, acesso irrestrito no Folha Online, ao cientista político John Green sobre o tema.]
domingo, 10 de agosto de 2008
SOLJENITSIN, OU: NEM ISTO NEM AQUILO
Essa não é a receita para manter a popularidade no Ocidente atualmente."
ANGELO SEGRILLO é historiador da USP, da Universidade Federal Fluminense e do Instituto Púchkin de Moscou. Escreveu "O Fim da URSS e a Nova Rússia" (Vozes).
Fragmento de Mais!, folha de São Paulo, 10/08/2008.


